sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

RESSURREIÇÃO

Acredito não ser de conhecimento geral muitas informações contidas por trás do evangelho segundo Mateus. Mesmo, porque, tanto as ciências como a religião sempre nos apresentou tudo pronto, sem que precisássemos pensar como se deu a origem.
Quando nos deparamos com textos exegéticos, logo de início concluímos ser de hereges violadores da Palavra de Deus.
Se analisarmos com mais afinco, Mateus em seu evangelho cria um Jesus que ensina e responde as questões mais remotas. Um Jesus que analisa a Lei a partir da sua ótica de conhecedor, transmitindo-a com naturalidade e sabedoria àqueles, que assim, desejar compreender, e outros que fazem apenas por acinte.
Dentre os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, que ora se contradizem, ora deixam questões a serem repensadas; o de Mateus é o que me aguça a leitura; por trazer uma linguagem de fácil memorização e compreensão. Cabendo a cada leitor e estudioso avaliar e repensar sua estrutura em geral. Pois, se voltarmos no tempo, muito antes de aparecer à escrita como forma de registro, a única maneira de preservar a história de um povo por longas gerações era pela sua transmissão oral – suas memórias que eram em sua maioria reconstruídas. O que não é descartado as inúmeras variações que muito provavelmente ocorreram nestas transmissões.
Em relação ao Novo Testamento – e vou dar ênfase ao Evangelho segundo Mateus, por ser nosso estudo; percebo todo momento as personagens (Jesus, os fariseus, os saduceus, a multidão, os discípulos etc.) usando recursos do Antigo Testamento para testificar o presente que estão vivendo.
Isto me leva a pensar que por isso, este evangelho não deve ser apenas lido, mas se faz necessário um estudo mais apurado dos fatos. Mesmo sendo uma linguagem de fácil compreensão, trás toda uma problemática acerca do judaísmo, o que o torna uma leitura de convicção, nos permitindo, até, acreditar ser o mais próximo das fontes.
O propósito é analisar Mateus 22.23-33, sem desconstruir o texto. Observaremos minuciosamente a visão da época, reavendo a tradição de um povo distante marcado pelos seus acontecimentos, e tentar entender a linguagem trazendo para dias atuais sem gerar supostos comentários, apenas expressar opiniões que poderão futuramente ser aperfeiçoadas através de pesquisas mais meticulosas.
Tomarei como base para esta analise a Bíblia conforme a tradução Ecumênica e o Novo Testamento interlinear grego – português, que ajudaram a chegar mais próximo do texto original.
Na sequência faço o relato por frase, assim entendidas, com comentários e opiniões possíveis de autores apresentados na bibliografia final, que se aprofundou em determinados temas geradores de dúvidas e contrapontos no decorrer deste estudo. Apesar de deixar bem claro não ser apenas este o objetivo final da exegese, pois é sabido que esta não se esgota em apenas uma única visão.
Palavra Chave: Evangelho, Jesus, mestre, vida após a morte, ressurreição, anjos, profeta da antiguidade.
A QUESTÃO ACERCA DA RESSURREIÇÃO – MATEUS 22.23-33
23 Em aquele dia aproximaram-se dele saduceus, dizendo não existir ressurreição, e perguntaram a ele 24 dizendo: Mestre, Moisés disse, se alguém morrer não tendo filhos, desposará o irmão dele a esposa dele e suscitará descendência ao irmão dele. 25 havia, pois entre nós sete irmãos; e o primeiro tendo casado morreu, e não tendo descendência deixou a esposa dele ao irmão dele. 26 Semelhantemente também o segundo e o terceiro até os sete. 27 depois e de todos morreu a mulher. 28 Em a ressurreição, portanto de qual dos sete será a esposa? Todos, pois tiveram a mesma. 29 respondendo E Jesus disse a eles: Errais não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus. 30 em Pois na ressurreição não se casam nem são dadas em casamento, mas como anjos em o céu são. 31 acerca de a ressurreição dos mortos não lestes o que foi dito a vós por Deus dizendo: 32 Eu sou o Deus de Abraão e o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Não é o Deus de mortos, mas de vivos. 33 E tendo ouvido isto as multidões estavam maravilhadas com o ensinamento dele.
(Tradução do grego – Novo Testamento Interlinear)
Logo que iniciamos a leitura desse texto, percebemos ser uma introdução narrada posterior a um acontecimento que havia naquele mesmo dia sido relatado, onde Jesus é indagado pelos fariseus acerca do pagamento de tributos a César (Mateus 22. 15-22). Os fariseus consideravam-se homens entendedores da Lei judaica, que era para a comunidade judaica da época a essência de suas vidas. Porém, estes fariseus, não faziam uso correto da Lei, e através dela manipulava e extorquiam, com total desrespeito. Por isso, viam na pessoa de Jesus uma ameaça aos seus interesses. E a todo o momento procuravam encurralá-lo. 
Voltando a leitura introdutória, sabemos que se trata de uma narrativa pela sua pontuação final que antecede a fala dos saduceus. Sendo que quem narra da inicio ao fato que está ocorrendo acerca de questões provocativas ao conhecimento de Jesus, só que agora vindas dos saduceus (Mateus 22.23). Algo que é frequente no Evangelho segundo Mateus; esta provocação, estes argumentos em testar a todo o momento os conhecimentos de Jesus (Mateus 19; 20). Podemos dizer que não se esgotaram as tentativas de derrubar Jesus nas perguntas, principalmente vindas de homens colaboradores de Roma a troco de manter seus interesses e prestigio perante todos. Desta forma eram assim, os saduceus definidos. Porém, não eram homens que se comparavam a autoridade farisaica, que eram vistos como os interpretes da Lei, e que tinham o conhecimento desta autoridade (Mateus 23. 2-3; 5. 21).
A narrativa continua prevendo os acontecimentos posteriores, pois o narrador tem pleno conhecimento dos fatos, tanto que continua sua narrativa explicando que os saduceus não acreditavam haver ressurreição. Vejamos que no texto anterior os fariseus testam a capacidade de conhecimento de Jesus, porém ao seu final é anunciado que eles admirados com tal resposta deixam a multidão e saem dali (Mateus 22. 22). Neste texto atual, percebemos a entrada dos saduceus logo de inicio, nos fazendo pensar que muito provavelmente já se encontravam por ali na multidão, esperando uma brecha e saída dos fariseus, para se pronunciarem perante Jesus e desafiá-lo com mais questões.
 Até aqui, podemos dizer que temos uma história com narrador e personagens construídos por este suposto autor implícito, que narra os acontecimentos históricos como se estivesse presenciando tudo de muito perto, um verdadeiro conhecedor da cultura judaica.
O texto continua, porém agora o narrador decide sair de cena com o anuncio de que os saduceus apresentam a Jesus uma questão.
Algo que se faz curioso a esta questão, não é somente ela em si, mas a forma pela qual os saduceus denominam Jesus ao dirigir-lhes a palavra; chamando-O de mestre (v. 24).
Se acompanharmos bem, no evangelho segundo Mateus, não é apenas a multidão ignorante e desprovida que caracteriza Jesus como mestre, mas muitas autoridades da época assim, o viam. Isto porque Jesus é um judeu que pratica a Palavra e a ensina sempre a observando pela vontade de Deus. Jesus se faz competente e reformador da Lei judaica do século I. Por isso, os conflitos são frequentes nesse evangelho, por ser ele um reformador da Palavra, não á descumpre em obediência a Deus.
Jesus e o mestre não se divorciam nesta narrativa, e sua autoridade não se assemelha as demais (fariseus, escribas, rabinos etc.), por vir diretamente de Deus. É este acesso a Deus que transcende qualquer outra autoridade da época. E também, por ser apocalíptica (Deuteronômio 18. 17-19) desde que Jesus nasceu e foi identificado como vindo da genealogia de David (Mateus 1). O próprio Jesus se via como um mestre (Mateus 26. 18), porém, após sua morte, ele transfere esta autoridade aos seus discípulos, para que continuem a instruir o povo (Mateus 13, 52).
Após chamarem Jesus de mestre, os saduceus intencionalmente ressuscitam a Lei de Moisés em sua fala.
Isto era comum à comunidade judaica, pois legitimava sua verdadeira identidade diante de outros povos, de ser o povo da aliança, escolhidos por Deus (Êxodo 24. 3-8; Deuteronômio 9. 11; Êxodo 25. 22). A Lei se fazia essencial para a comunidade, tanto que viam as profecias se cumprirem em seus dias, através de eventos ocorridos na antiguidade.
A fala dos saduceus continua após evocarem a Lei de Moisés a principio entendida como casamento e descendência. Isto se dá através de uma história, que teve seus fatos isolados entre a comunidade. A história era uma forma de enfatizar os fatos e preservar a memória, pois se tratava de um povo que vivia da transmissão oral, sem a preocupação de registrar algo, por sua maioria ser analfabeto.
O relato é acerca de sete irmãos e uma única viúva, que acabam morrendo sem deixar futuras gerações. Não se sabe o motivo da morte e muito menos o porquê os saduceus tiveram a necessidade de enfatizar serem sete irmãos (supostamente por ser um povo de símbolos e mitos, pois o número sete era usado com frequência desde a criação - Gêneses 2.3), o texto não nos revela, fazendo acreditar não ser relevante para o que será colocado ao final da história. Porém, este final é concluído pelo real interesse da questão, que não vem a ser o casamento da viúva com os sete irmãos ou a questão da descendência, mas sim, com qual dos sete irmãos a viúva será companheira na ressurreição (vs. 25-27).
A questão proposta pelos saduceus parece ter certo sarcasmo, não em relação à ressurreição em si, uma vez que a introdução do texto nos mostra que para eles não fazia a menor diferença por não acreditarem na ressurreição. Mas, o fazem pelo simples fato de poderem confundir Jesus e poder anunciá-Lo como um leigo da Lei e interpretação desta diante da multidão que ali se encontrava.
O termino da fala do saduceu no v. 28 em anunciar a morte da mulher e dos sete irmãos, soa no texto como um alívio e ao mesmo tempo um desejo que se concretizaria na fala de Jesus, a partir da resposta a sua pergunta.
Até aqui, o texto mostra apenas a narrativa de um dos saduceus, acerca de uma trágica história de casamento seguido de morte sem descendentes, que incluía uma tradição a qual morrendo um dos irmãos, a viúva deveria ser amparada pelo irmão seguinte. Uma das leis que se faz clara no livro de Rute; e mais uma vez é utilizada no evangelho segundo Mateus para legitimar o que estava sendo falado.
Após toda esta história em torno da questão colocada pelos saduceus, finalmente Jesus aparece no texto para se pronunciar (v. 29), como se não estivesse surpreso com a colocação do saduceu, como se soubesse o desfecho do que ouvira muito antes do termino da fala do saduceu. Simplesmente como um mestre sábio, escuta com atenção, para no momento oportuno interpretar a Lei de acordo com sua sabedoria vinda de Deus.
Percebemos uma estrutura do texto bastante organizada, em que as personagens se pronunciam uma após a outra, de acordo com a autonomia do autor.
Então, Jesus se faz mestre e conhecedor da Lei e de sua interpretação, sem perder sua autoridade. Isto se dá quando adverte os saduceus de não conhecerem a Lei e muito menos o poder de Deus.
Realmente os saduceus não eram como Jesus. Não podiam ser chamados de interpretes da Lei, pois, não a praticava com sabedoria e não a vivia em obediência a Deus. Bem diferente de Jesus que ensinava dentro da Lei, muitas vezes contradizendo as autoridades locais não por não concordar com a Lei, mas pelo mau uso que faziam dela.
Jesus ao terminar sua advertência no que se refere ao não conhecimento dos saduceus acerca da Lei e do poder de Deus, inicia seu ensinamento referente à questão do saduceu de forma bem ordenada (v.30) a história contada por este.
Ao iniciar, logo podemos notar o grau de conhecimento e autoridade transmitidos por Jesus ao falar de um assunto pouco costumeiro para a época – ressurreição (v.31). Porém, que para Jesus não se fazia novo, por saber que morreria e ressuscitaria ao terceiro dia. (Mateus 17. 22- 23; João 11. 25; 20; 1 Coríntios 15.1; Lucas24; Marcos 16; Apocalipse 20.5). Mas, os saduceus estavam ansiosos em confundir Jesus, e a multidão provavelmente esperava pela resposta de Jesus, como um ensinamento ou instrução, bem contrário aos desejos políticos dos saduceus. Porém, o texto não relata se esta era a real importância para a comunidade da época. Mesmo assim, Jesus entra no assunto ensinando de acordo com a história que lhe foi apresentada pelos saduceus. E a primeira coisa que faz é dizer que a mulher não será de nenhum dos sete irmãos após a morte, confirmando com convicção conhecer perfeitamente acerca do assunto, tanto que alerta que ”não se casam e nem se dão em casamento”. E prossegue dizendo que “seremos como os anjos no céu”. Mateus não relata a condição de um anjo, porém, em Deuteronômio 14. 1, podemos de acordo com a tradição da época saber que este nome era dado aos filhos de Deus, os escolhidos, aos justos mortos que estão no paraíso, ou aos filhos obedientes de Deus, que estão na terra. Por isso, prossegue mencionando ser “Deus de Abraão, Isaque e Jacó” (v. 32), por terem sido homens justos, escolhidos e obedientes a Deus. Mateus também faz uso da palavra anjo, ao pronunciar acerca do nascimento de Jesus no capítulo 1. 18-20.
A fala de Jesus segundo o texto não apresenta qualquer interrupção por parte dos saduceus ou pela multidão, que provavelmente continuava a ouvir atentamente seus ensinamentos acerca da questão proposta pelo saduceu.
Ainda na frase “são como os anjos no céu”, Jesus não coloca céu no plural, e o mesmo encontramos em Gêneses 1. 8-9, que fala apenas de um céu. O que nos leva a crer que por não haver a ciência e todos os demais conhecimentos que hoje são nos apresentados, a comunidade da época se baseava apenas no que estava ao seu alcance relatar, sem fazer qualquer tipo de menção ao desconhecido, uma verdadeira linguagem de fé. Na antiguidade, quanto na época de Jesus falar de céu era falar de Reino de Deus, pois ali habitava Deus, no alto, muito distante do alcance da multidão. Para Mateus o paraíso ou céu não são relevantes, o mais importante era o Espírito Santo de Deus está junto a eles na terra. O que nos leva a crer que Mateus utilizava muito da teologia de Isaias para confirmar os textos de seu evangelho.
A linguagem do Evangelho segundo Mateus, remete a linguagem do século I, que coloca anjos, céu, vida pós a morte, ressurreição etc. como símbolos. Fazia-se necessária a linguagem do mito para permear as explicações da época. Por isso, Jesus usa destes símbolos para explicar ao povo estes eventos que para a comunidade são desconhecidos.
O texto termina no v.33 sem dizer o que aconteceu aos saduceus, se ficaram satisfeitos ou não com as respostas vindas dos ensinamentos de Jesus. O que relata a última narração é como a multidão se maravilhou ao ouvir a interpretação vinda de Jesus, nos levando a refletir, que entre os da multidão se juntavam os saduceus.

CONCLUSÃO
Este texto de Mateus aparentemente se faz simples a leitura, mas quando analisado, deixa muitos pontos sem resposta, como o caso da ressurreição e a vida pós a morte, ambas não se dá na experiência empírica, é algo que se dá na experiência cristã, e continua sendo um mistério sua revelação. Penso que Jesus ressuscitou não no corpo, mas na fé de cada sujeito que Nele crê.  Pois, não presenciamos nenhum fato verídico que alegue ter conhecido o outro lado com convicção. Ou alguém, que tenha morrido na carne e ressuscitado em seu espirito para que o possa mencionar. O que nos faz refletir ser uma história contada a partir de uma construção humana, com uma única realidade – a história dos vencidos.
Em Mateus vejo alguns mitos, que nos leva a pensar que ainda era uma forma da comunidade da época expressar-se através de seus símbolos enquanto não surgia a ciência para que estudasse mais a fundo os eventos ocorridos. A maior parte do pensamento do evangelho segundo Mateus vem pela teologia de Isaías, principalmente acerca da morte.
O que o evangelho segundo Mateus faz, é trazer vestígios da vida de Jesus, pois não temos nenhuma história acerca da vida de Jesus dos seus 9 aos 30 anos. E por isso, se usa tanto de símbolos e da linguagem mítica do século I.
Mateus coloca os fariseus sempre em conflito acerca da Lei interpretada por Jesus. Pois, Mateus os vê como um real problema a toda a comunidade da época. Tanto que estes aparecem o tempo todo anônimos em seus nomes. Mateus deixa clara sua repugnância pelo inimigo.

Um comentário: